Blonca
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A Mala

25 de fevereiro de 20263 min read

Quando abri a porta ela jazia no meio da minha sala.

Um calafrio subiu do meu pé até a nuca, gelei.

Moro sozinho, ninguém tem a chave da minha casa. Como alguém conseguiu entrar e deixar isso na sala? na minha sala...

Ainda tem alguém aqui?

Fui com calma acendendo as luzes de casa.

TEM ALGUÉM AÍ? — gritei com firmeza. — Não quero problemas. Sou amigo pessoal do delegado, e ele não ficaria feliz em perder a sua dupla de cartas.

Ninguém respondeu.

Nenhum som.

Nada parecia remexido, trocado de lugar, ou sequer pisado no chão.

Quem entraria numa casa, sem mexer em nada, só pra deixar uma mala no meio da sala?

Peguei uma garrafa de cima da bancada e fui vasculhar. Comecei pelo quarto, entrei devagar rezando para que nada se mexesse, que nada tivesse.

Fui pisando na ponta dos pés, corpo duro e suando frio.

Parecia que o vento tocava uma musica tensionada em meus ouvidos.

Nada.

Intocado.

Tudo que tenho de valor no seu devido lugar.

Acho que preferiria que algo tivesse ali, me encarando com a resposta.

Dei mais uma olhada na casa. Nada. Não tem muitos lugares onde alguém, algo, poderia se esconder.

E o que era a mala? me voltei para a coisa.

Não sabia se abria, se mexia.

Estava tenso até de tocar naquilo.

Cheguei perto, encarando-a como quem encara um bicho morto no meio da estrada.

Pensei em ligar pra um amigo, mas era tarde da noite, até a lua se escondia a essa hora.

A policia?

E falar o que? Deixaram uma mala aqui pra mim?

Dizer que eu estava com medo de abrir uma mala?

Como explicar que eu estava em pânico só de olhar pra ela?

Eu sentia algo dentro. Cheguei mais perto.

Algo se mexeu?

Parei. Um cheiro confuso engatinhava na mucosa do meu nariz. Sentia meu estomago embrulhar. Como não consigo descrever esse cheiro?

E porque eu ficaria assim tenso? Pensei comigo mesmo.

Balancei os braços como um preparo pra agir. Medo de um objeto inanimado?

E com os olhos a procura do zipper, aproximei minhas mãos.

Quando estava prestes a tocar, senti algo ruim. A mala se mexeu.

Se mexeu?

Fui eu?

Eu? Isso não pode estar certo.

Ouvi um barulho.

Da mala? Ou de quem está escondido? Onde? Como pude deixar passar despercebido? Alguem conseguiu se esconder na minha casa?

É só a merda de uma mala. E daí?

O objeto está tentando me desestabilizar?

Corri em direção ao meu quarto. Passos confiantes me enganando, fingindo que o medo não exalava um cheiro através da minha pele.

Nada. Atrás das portas do armário, nada, no espaço em baixo da cama que não cabia uma caixa. Atrás da cortina. Nada.

Voltei pra sala na mesma velocidade que sai da lá.

A mala está aberta.

Eu congelado.

Não consigo sair do lugar.

E não sei se quero.

Ecos da leitura

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