Blonca
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O Trem

O Trem

25 de fevereiro de 20262 min read

Me senti empurrado daquela sala escura para a luz incandescente do lado de fora. Tentei tampar com as mãos, mesmo que tarde de mais, sentindo a dor nos olhos. O trem já partia, saindo da estação. Confuso, corri para a porta mais próxima, tentando me agarrar onde desse.

Recuperei a visão e o folego e me vi em pé encarando a longitude da infinidade de vagões a frente. Caminhando ainda com receio pelo chão duro, não entendi muito bem o porque, mas sentia que tinha que chegar ao vagão final, ver cada seção no caminho.

Abri a porta do vagão. Vi pessoas que eu conseguia sentir que eram conhecidas, mas não sabia bem como. Mesmo com a sensação de pertencimento esquisito deixei o vagão.

Abria a próxima porta.

Na mesma velocidade que o trem corria, mudava o clima e o sentimento para algo mais caótico que parecia permear meu corpo. Luzes, cores, sentimentos. Até mesmo o próprio ar parecia me dar uma energia angustiante, mas que me movia para frente.

Corri para a próxima porta.

Do outro lado já não conseguia distinguir as paredes e chão, tentava entender as sensações conflitantes dos vagões, me parecia mais uma sopa que eu não conseguia distinguir o gosto. Tentei andar apressadamente pra me livrar da sensação.

Passei pela porta, mas com a angustia em uma soma ainda maior, queria que o trem parasse, mas já nem sabia distinguir o que era o trem.

Me sentia mergulhado em um rio de tinta multicolorido que agarrava minha pele, com um cheiro esquisito que abraçava meu nariz e que não me deixava ir.

Tentei me voltar para porta anterior, mas já não conseguia apontar nem com os olhos onde poderia estar.

Já era tarde de mais. Me entreguei e me deixei mergulhar, aproveitando o que restava daquela viagem até me submergir de memorias e sentimentos, lembrando de todos os vagões que passei, voltando agora pro escuro da sala.

Ecos da leitura

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